quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Primeiro dia de aula

Postado por Gisele Moraes às 08:00




Acho que poucos devem ter o privilégio de se lembrar do primeiro dia de aula. Ou não? Se bem que no meu caso não sei se é um privilégio mesmo ou se eu preferia esquecer...
Lembro-me que sempre fui muito curiosa e sempre gostei de novidades, de aprender. Aos seis anos de idade, estava ansiosa para ir ao "parquinho", como era chamada a pré-escola na minha época de criança. Não tinha amiguinhos e as únicas crianças com as quais convivia eram minha irmã e meus dois primos. Fomos criados todos juntos pela minha avó, enquanto nossas mães tinham que trabalhar. Não tive uma infância de muitas brincadeiras, infelizmente. Minha avó era muito rígida e tínhamos muitas responsabilidades impostas, que incluíam limpar a casa e cuidar uns dos outros. Era assim: os mais velhos cuidavam dos mais novos. Brincar na rua nem pensar! Apesar daquela época não ser tão perigosa como hoje, minha avó dizia que brincar na rua era coisa de "criança largada".
Nosso praticamente único "passeio" era ir à missa aos domingos, e a escolinha onde eu iria estudar ficava ao lado da igreja. Eu até que gostava de ir à missa, mas uma criança de seis anos não tem concentração para aguentar aqueles rituais leeeeeentos por mais que dez minutos (e nem entende o porquê daquilo tudo). Então, quando meus familiares se distraíam durante as orações, eu sempre dava uma escapadinha para ir olhar o parquinho. Tinha balança, escorregador, gangorra, caixa de areia... Ah, como eu queria ir lá brincar!
Até que chegou o dia... Eu estava tão feliz! Tinha até ganho um livro de colorir de um primo. Estava preocupada porque não tinha lápis de cor, mas os adultos diziam que a "tia" ia me emprestar, que não era pra eu falar de novo neste assunto.
Quem me levou até lá foi minha tia mais nova. Quase todos os outros alunos estavam com o pai e a mãe, ou só com a mãe, mas como minha mãe trabalhava o dia todo... Bom, pelo menos não tive que ir sozinha...
Timidamente entrei na sala agarrada ao meu livrinho, e me lembrei que a vó tinha dito pra eu sentar perto da professora, que assim eu aprenderia mais. Ávida por aprender, avistei o lugar ideal!

Ficava perto da lousa, perto da tia! Não sei se ainda é assim, mas naquela época sentávamos em grupo, era uma mesa cor de laranja e quatro cadeirinhas em volta. Vi que duas meninas já estavam sentadas. Me aproximei e estiquei o braço para puxar a cadeirinha e me sentar, mas, inesperadamente, uma menininha petulante pulou na minha frente, puxou a cadeira pra ela e me disse com a cara mais feia do mundo (a qual eu nunca vou esquecer):"Sai daí que essa cadeira é minha!". Sem reação, segurei o choro e me calei... Mas me lembrei que a cadeira do lado estava desocupada. E, novamente, quando fui me sentar, ela me puxou pelo braço, me arrancou de lá e disse com a cara mais feia ainda (não me esqueço mesmo, nem que passe 100 anos...):"Quem vai sentar aí é minha amiga! Sai daqui que você não é minha amiga!" Menininha arrogante, petulante! Ela estava demarcando seu território, e não aceitava ninguém que não fosse do seu grupinho de menininhas frescas, nojentinhas e patricinhas. Como algumas crianças podem ser tão cruéis mesmo com tão pouca idade?


E eu o que fiz? Senti uma mágoa tão grande me apertando o peito... e só pude chorar! Chorar foi o que eu fiz! Por muito tempo depois me cobrei, me perguntei porque eu não me impus! Eu sabia que estava certa, tinha chegado primeiro, tinha o direito de me sentar lá onde eu queria. Mas não reinvidiquei meu direito... Não sabem como isso afetou o resto da minha vida. Por muito tempo depois fui excluída de vários outros grupos e acreditei que nunca mereceria o melhor lugar de nada... Afinal quem era eu? Ninguém! Nunca fui ninguém importante, até entender que só somos importantes para quem nos ama de verdade, mas isso demorou anos e anos para eu sacar.
Só sei que naquele dia eu chorei muito... um choro doído... de decepção, talvez por sonhar tanto com o parqinho, mas querer sumir de lá logo no primeiro dia...
Esperei por uns instantes vãos que a tia fizesse justiça por mim, e colocasse a petulantezinha em outro lugar e eu no meu lugar de direito. Mas não foi o que aconteceu... Ela me colocou lá no fundão. Viu que eu estava abraçada ao livro de colorir e me perguntou:"Você não quer pintar o seu livro?" Em meio às lágrimas, respondi que sim, mas que não tinha os lápis coloridos. Isso me fez chorar mais ainda... lembrar que nem como colorir meu livrinho eu tinha... eu era um "nada", mesmo, pensava... Foi então que a tia apareceu com uma caixinha de lápis de cor nas mãos: "Tome, não chore mais! São seus! Pode pintar o seu livro!" Ah! Eu parei de chorar na hora! Limpei o rosto com a manga da blusa e esqueci tudo aquilo num instante! As crianças até me olharam com ar de inveja, inclusive a nojentinha, por eu ter ganho uma caixa de lápis de colorir da professora, coisa que nenhum puxa-saco jamais conseguiu depois, hehe...
Não me lembro de muitos dias específicos seguintes, mas sei que logo me adaptei. Era desprezada pelo grupo das patricinhas e também dos meninos. Mas me acostumei com isso. Me lembro que depois fiz amizade com uma garotinha negra, que também era desprezada por ser sujinha e pobrezinha. Ela não era de falar muito, mas brincava comigo, gostava de mim e eu dela, e era isso que importava.

E como eu amei a pré-escola! Lá eu podia cantar, ouvir historinhas, pintar, desenhar, aprender e brincar muito no parquinho! Era tão diferente da vida em casa, onde eu não tinha nada disso...



Esta foi com certeza a melhor fase da minha infância!



3 comentários:

Eve on fevereiro 11, 2010 8:19 PM disse...

Puxa... isso acontece muito, ainda nos dias atuais... Eu trabalhei na pré-escola, com crianças de cinco anos e tinha o maior cuidaddo para perceber as "crianças malvadas", pois acredito - e você comprovou no seu texto - que as coisas que nos acontecem na infância nos marcam pelo resto da vida, podendo até determinar o que seremos no futuro! Espero que hoje em dia você não se sinta um "nada" e nem se permita ser excluida, pois mesmo sem te conhecer pessoalmente tenho grande afinidade por você - por meio dos seus texto! Posso te considerar uma amiga?!!! (na verade já considero)

Super beijocas

Eve

Gisele on fevereiro 11, 2010 11:14 PM disse...

Oi, Eve!
Que legal que você se identifica com meus textos! Claro que pode me considerar, amiga, também te considero muito!
Graças à Deus hoje em dia não me sinto mais um "nada". Tive a minha auto-estima bombardeada várias vezes na infância e na adolescência, por conta de vários acontecimentos traumatizantes como este(breves posts...aguarde!...hehehe...). Mas percebi que não adianta querer ser amado por todos, que o importante mesmo é a qualidade dos amigos que estão ao seu lado, e não a quantidade. Também percebi que só somos importantes para quem nos ama de verdade e que é muito melhor amar que ser amado. Sendo assim, hoje sei que tenho valor, pois os amigos que tenho são poucos, mas são valiosíssimos. Tenho algumas amizades sinceras de mais de 20 anos. Também me senti mais valiosa quando tive meus filhos, pois sei que pra eles eu sou "tudo", e é isso que importa realmente.

Super beijocas pra vc tbém! Obrigada pelo carinho!

Carlinha Salgueiro on fevereiro 16, 2010 5:27 AM disse...

Oi Gi, se fosse com uma filha minha eu queria era matar.
As crianças são crueis e eu me encaixo no grupo das que choravam.
Hoje, eparrey, sai de baixo. A gente aprende a se defender... Ao contrário dos mimadinhos e patricinhos.
Pelo menos a gente tem história de vida e sabe o levantar e sacodir a poeira.
Ao contrario de muitos.
Mas, não discordo de vc, criança é o bicho mais cruel qdo quer.
Acho que indole vem na alma... Infelizmente.
Adorei o texto, de qualquer forma, você tem uma ótima redação e faz a gente voltar no tempo.
Beijinhos!

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