segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Memórias da infância

Postado por Gisele Moraes às 00:07
(Eu com 1 ano e meio de idade. Minha única foto de bebê e a mais antiga.)


Qual é a lembrança mais antiga que você possui? Aquela guardada lá no fundo do baú da memória, tão longe que, quando pensa nela, realidade e imaginação até se misturam e você não sabe mais o que é real e o que foi inventado por sua mente para "imendar" as partes que ficaram faltando?

Sempre tive boa memória de acontecimentos passados e de detalhes. Se os quero lembrar, lembro com perfeição.

A minha mais antiga lembrança foi de quando eu tinha apenas dois anos de idade, talvez dois e meio.

O engraçado é que nesta época aconteceu um fato muito relevante que marcou minha vida para sempre, que foi a separação dos meus pais. Mas, estranhamente, disso eu não me lembro...

Meu pai foi um alcoólatra, e quando bebia (o que acontecia quase todos os dias, segundo minha mãe) tornava nossas vidas um inferno. Ele ficava agressivo e sempre acabava batendo na minha mãe. Também costumava perder todo o pouco dinheiro que ganhava como serralheiro sendo enrolado pelos 'companheiros de copo' ou roubado no jogo. Estávamos já passando fome, quando minha mãe resolveu voltar para a casa da minha avó trazendo a mim e a minha irmã (três anos mais velha que eu) e deixando pra trás aquele homem que destruiu todos os seus sonhos.

É somente este ponto que minha memória consegue alcançar, este dia específico. Lembro que minha mãe, minha irmã e eu estávamos dormindo na sala da minha avó, em colchões improvisados. Provavelmente fazia somente alguns dias que estávamos lá. Eu acordei de madrugada e não consegui mais dormir. A luz de fora estava acesa e eu fiquei um tempão olhando pra ela até que veio a claridade. Fiquei pensando, lógico que não me lembro em quê, mas de repente me veio uma idéia estranha na cabeça... Algo me dizendo pra eu ir lá fora e procurar atrás da casa, que encontraria alguma coisa. Foi uma intuição muito forte! Nunca fui de acordar cedo, mas atendendo àquele estranho 'chamado', resolvi obedecer. Fui pra trás da casa. Tinha lá umas madeiras que meu avô tinha guardado. Fiquei morrendo de medo... era tão cedo que pairava aquela névoa. Mas eu não desisti. Procurei entre as madeiras e - encontrei! Encontrei um brinquedo! Era um gatinho (ou patinho talvez, ou cachorrinho...não sei) de borracha, daqueles que a gente aperta a barriguinha e faz barulho de apito, sabe? Fiquei tão feliz! Fui contar para todo mundo minha aventura e perguntar se pertencia a alguma criança o 'tesouro' que eu tinha encontrado. Pra minha felicidade, ninguém sabia de quem era ou de onde tinha surgido o tal brinquedo, e eu pude ficar com ele. Claro que ninguém deu bola pra mim. Era só um brinquedo bobo e eu era só uma criança boba...

Sim, realmente era um brinquedo bobo, e também uma lembrança boba... Mas levem em consideração que eu tinha só dois anos de idade, as circunstâncias em que encontrei o brinquedinho e a situação em que me encontrava na época... e eu, com tão pouca idade mas já seguindo meu coração, me aventurando, buscando 'tesouros' escondidos em lugares pavorosos... e no final, sendo vencedora! Já imaginou se no lugar do brinquedo eu tivesse encontrado uma cobra ou uma aranha venenosa?!

Deve ser verdade mesmo que o nosso cérebro 'apaga' as lembranças muito traumáticas. Eu poderia me lembrar do meu pai bêbado batendo na minha mãe, da coitadinha chorando toda machucada sem poder se defender, dos dias que não tínhamos nada pra comer, ou da minha mãe juntando nossas pouquinhas coisas, pegando o ônibus com duas filhas a tiracolo e voltando para a casa da mãe com seus sonhos de juventude todos despedaçados, não é?

Mas não... Só do que me lembro é do gatinho de borracha.
Sim... definitivamente era um gatinho.



3 comentários:

Carlinha Salgueiro on janeiro 18, 2010 1:44 AM disse...

Que história adorável, viajei no tempo com você agora!
Beijos!

Eve on janeiro 18, 2010 11:42 AM disse...

É muito bom se lembrar daquelas velhas coisas que nos fazem sentir que a vida é uma grande aventura! E que não importa o que aconteceu, só importa o que foi bom!

Beijocas

Eve

mara on abril 09, 2010 12:48 PM disse...

Zele, eu lembro do exato dia em que saímos de casa.... da mãe chorando sem parar....da gente chegando na casa da vó, a casa era toda arrumada e me dava medo. af!

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